Navegar é preciso. Viver também.

Navegar é preciso. Viver também.

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Um amigo desabafou comigo sobre seu relacionamento. Ele namora há um ano, mas estava se sentindo tão cansado, tão sobrecarregado com as circunstâncias que já não sabia mais se valia ou não a pena continuar. A moça desconfiava de cada passo dele e queria a senha das suas redes sociais. Segundo ele, as brigas eram tão frequentes que já haviam se tornado rotina e isso o deixava cada vez mais exausto. Ao invés de lhe dizer minha opinião, resolvi questioná-lo sobre aquilo. Queria entender melhor o que se passava, como ele se sentia e se ainda havia o principal para ir em frente: o amor.

Às vezes ficamos tão presos a um relacionamento e por tantos motivos que esquecemos o principal. Perguntei ao meu amigo por que ele não terminava o namoro, já que se sentia tão mal. Queria saber por que ele não abandonava o barco, se era evidente que ele já estava afundando. Era só questão de tempo. “Porque se eu terminar não tem mais volta.” “Só por isso? Tem certeza?” Mas se não está feliz, por que tem medo de se arrepender?” Ele não respondeu. Não falou mais comigo naquele dia, nem no dia seguinte. Talvez não tivesse ainda a resposta ou estivesse irritado demais para pensar sobre aquilo. Alguns dias depois, já mais calmo, a resposta veio. “Bia, é o seguinte: as pessoas gostam de segurança. No geral estou seguro com essa pessoa, já sei o que posso e o que não posso fazer, confio e tal. Acomodação seria a palavra certa.” Ele já conhecia o mar onde navegava, não queria correr o risco de mudar a direção.

Foi a minha vez de ficar pensando. Acomodação, essa palavra tão comum, mas tão perigosa. Ficamos acomodados num emprego, numa cidade, num relacionamento. E corremos o risco de permanecer ali para sempre. Deixamos a felicidade em segundo plano e o amor vai sendo esquecido, amornando, até restarem apenas gritos, lágrimas ou, pior ainda – um imenso vazio. Às vezes atracamos nosso navio em um porto que consideramos seguro porque temos medo de avançar mar adentro, porque esse avanço implica encontrar tempestades, maremotos e até monstros marinhos, mas esquecemos que depois disso tudo pode vir uma terra firme, repleta de belezas desconhecidas. E corremos o risco de passar a vida ancorados, contemplando o horizonte, com um pé no cais e o outro no navio, mas sem nunca decidir embarcar de verdade. Sim, ter segurança é realmente bom, mas segurança demais pode ser muito perigoso. Periga estagnarmos, enferrujarmos e nunca mais conseguirmos recuperar o motor.

A vida é um grande risco, meu amigo. E é curta demais para você ficar com alguém por acomodação. Não é justo com você, não é justo com ninguém. Seja qual for a circunstância, nunca permaneça na zona de conforto. Ficar onde está não lhe privará de sofrer, o sofrimento se tornará apenas mais previsível. Então desate o nó do comodismo e siga em frente. Sem medo. Sem culpa. Apenas com responsabilidade. E acredite, por mais que no seu mar apareçam tempestades, depois delas a luz do sol é sempre mais bonita. Navegar é preciso. Viver também.

 

2 thoughts on “Navegar é preciso. Viver também.

  1. Amei o texto. Já vivi e senti algo parecido na pele, mas costumo dizer que “não nasci para uma vida cômoda”. Acredito que viemos a esse mundo (dentre outras coisas) para sermos felizes, e comodismo definitivamente não é esse caminho. Parabéns pelas reflexões lindas de sempre, Bia! Amo ler teus escritos! :)

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