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Carta a Um Homem das Estrelas

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Minha pretensão era escrever esta carta enquanto você ainda podia tê-la em mãos. Não sei como eu faria para entregá-la, nunca parei para pensar nisso, mas de alguma maneira eu deveria ter corrido contra o tempo para que ela chegasse até você. Muita gente diz que esse tipo de coisa é idiotice, mas eu não costumo ligar muito para o que os outros falam. E aprendi isso com você.

Sabe Bowie, quando te vi pela primeira vez eu era apenas uma criança. Tinha uns 7, 8 anos e nem sabia que você cantava além daquelas canções do Labirinto, só soube porque um dia, em uma das incontáveis vezes que eu o estava assistindo, meu pai me falou sobre você. Até então para mim você era o Jareth, vilão apaixonante de um dos meus filmes favoritos e eu sempre imaginava que se algum dia a gente se encontrasse (na minha mente de criança não havia muita noção de que você era da Inglaterra e as chances da gente se esbarrar na rua eram praticamente nulas), a primeira coisa que eu iria dizer seria “minha determinação é tão forte quanto a sua, meu reino é tão grande quanto o seu.” Eu sabia todas as falas do filme, mas nunca tive uma determinação tão forte quanto a sua, nem consegui chegar até o reino que você chegou, por mais que eu quisesse. Porque fui crescendo e deixando de ser aquela menina que acreditava que bastariam algumas palavras para que o Rei dos Duendes aparecesse para mim. Por algum motivo que ainda não superei, me ensinaram que algumas coisas pertencem só ao mundo da fantasia enquanto me arrancavam de lá com argumentos de que definitivamente aquele não era meu lugar. E sequer tive tempo de responder “você não tem poderes sobre mim”, afinal eles tinham.

Pois é, eu cresci. No meu mundo não havia portas falantes (embora a vida muitas vezes tentasse me confundir tanto quanto elas na hora de decidir que caminho seguir), nem um amigo que quando eu estivesse em perigo conseguisse mover as pedras para me ajudar (embora muitos deles na vida real tenham feito bem mais do que isso). Mas foi esse mundo real que me fez perceber que eu queria continuar sonhando. Que eu queria sim, ser a Sara pela qual Jareth se apaixonara e para quem ele enviava sonhos capturados em bolinhas de cristal. Porque a gente precisa acreditar, precisa de alguém que nos diga que não precisamos ser só aquilo que os outros esperam de nós, nem crer apenas no que os outros nos impõem. E isso eu também aprendi com você.

Foi você que me entendeu nas inúmeras vezes em que me senti uma alienígena que não se encaixava neste mundo, que não conseguia ver sentido em tanta coisa por aqui, nas vezes em que eu quis ignorar as tentativas de contato vindas da Terra. Você me compreendeu todas as vezes em que resolvi mudar, nas vezes em que me transformei por dentro e por fora, que mudei de ideia, de gosto, de atitude e opinião. Calmaria, tempestade, amor, solidariedade, ser uma só e ser esse turbilhão. Sim, você me mostrou que era natural sentir tudo isso, que ser diferente é normal.

Tínhamos concepções parecidas sobre o amor, sobre a liberdade de amar e a plenitude de sermos o que quisermos, independente de gênero, cor ou o que for. Você me ajudou a me sentir completa quando mostrou que não é necessário haver uma limitação no que vestir, meninos e meninas usam o que quiserem, desde que se sintam à vontade com isso. E sabe o que é mais fantástico nisso tudo? É que você começou a escrever essa história em uma época na qual muitos tabus ainda estavam longe de serem quebrados. Você foi o que queria, do jeito que gostava. Nunca se limitou, nunca subestimou a própria capacidade de ir além. E isso eu estou aprendendo também.

Sabe Bowie, quando recebi a notícia de sua partida, por alguns instantes me neguei a acreditar. Porque nenhum outro artista jamais me representou tanto quanto você em termos de ideias e ideologias. Acho que nenhum outro me inspirou tanto a seguir o caminho que eu quero e não o que os outros esperam. Nenhum foi esse misto de tantas coisas que eu gosto e acredito. Em uma única vida escrever tantas histórias, abrir tantas portas, ser tanta gente, mas principalmente, ser você mesmo. Você nos abriu caminhos, incentivou, inspirou. E nos deixou uma grande lição: A gente vai morrer de um jeito ou de outro. A única diferença está na maneira como resolvemos viver: indo para o lado escolhido pela multidão ou fazendo história. Isso eu guardarei para sempre na memória. E todas as vezes em que olhar para o céu, lembrarei que ‘há um homem das estrelas nos esperando por lá’. Adeus, meu Starman.

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