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A última carta

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Nem sei por que decidi escrever esta carta. Talvez porque precise compartilhar com alguém os motivos que me levaram a ir embora, mesmo sabendo que minhas palavras só serão lidas quando eu já estiver longe daqui. Não tenho mais razões para continuar, só vejo escuridão, caos, desilusão. Todos os dias procuro um sentido para viver, algo que me faça mudar de ideia, mas não tenho encontrado. As pessoas falam em felicidade, paz, alegria, mas isso definitivamente não faz parte da minha vida.

Por favor, não pense que não me esforcei. Pelo contrário, fiz um esforço imenso para seguir em frente. Mas tudo isso é muito maior do que eu. Tudo o que consigo sentir é um peso enorme, que me puxa sempre para baixo e não me deixa ver a superfície. E não adianta dizer que é fase, que passa, que vou superar. Já me disseram a mesma coisa inúmeras vezes e todas as pessoas que me falaram isso simplesmente cansaram de me ouvir. Eu também cansei de falar. Falar pra quê? Nem todo mundo entende e a gente sabe que dizer coisas negativas repetidas vezes é mesmo cansativo. O melhor a fazer é manter o silêncio. E isso eu aprendi bem.

Você não tem ideia do quanto me sinto cansada. É um sentimento de exaustão, que consome todas as minhas forças. A dor que sinto na alma é muito maior do que se pode imaginar. Ela me pressiona para baixo, me impossibilita, me sufoca. E por mais que eu tente explicar, nada disso é passível de compreensão. Já me disseram que chorar alivia e você não imagina o quanto já chorei. Já passei noites em claro entregue ao desespero, me afogando em pensamentos e sentimentos, cansada demais para pedir socorro e desanimada demais para pensar em continuar. Mas hoje cheguei ao meu limite. Não dá mais.

Talvez você me ache covarde e é provável que eu seja mesmo. Mas quando se está no fundo do poço, dependendo da profundidade, nem todas as cordas conseguem nos alcançar. E quem se importaria o suficiente para jogar a corda? As pessoas dizem que se importam, que querem o melhor para você, mas até que ponto elas são capazes de ir para te provarem isso? De qualquer maneira, se de alguma forma elas sofrerem com a minha partida, é certo que será por pouco tempo. Logo cairei no esquecimento, serei apenas mais uma nas estatísticas. E quem realmente se importa?

Não, não pense que me sinto corajosa ou tenho orgulho de mim por desistir. Pelo contrário. Mas essa é a minha única e última alternativa. Talvez eu já tenha cumprido a minha parte. Vim a este mundo e tentei dar o melhor em tudo o que fiz. Infelizmente, nem sempre a vida é justa. Ao menos comigo não foi. E eu sei que as coisas não mudarão.

Bom, é hora de ir. Não dá mais pra esperar. Espero que me perdoem por isso e entendam que não tive outra opção. Continuem suas vidas, sigam em frente e sejam felizes. De verdade. A vida segue e vocês precisam fazer o mesmo. Quanto a mim, foi minha escolha. Não se sintam culpados nem carreguem nenhum remorso. Estou fazendo o que sei que é melhor. Estarei bem a partir de agora. Para onde vou não haverá mais dor, sofrimento ou tristeza. Não haverá mais nada. Acabou.

*Esta poderia ter sido a última carta de Ana. Felizmente ela decidiu viver. Hoje os fatores que a levaram a pensar em suicídio não existem mais. Ela se considera uma pessoa renovada, forte e acima de tudo, feliz. Conseguiu realizar alguns sonhos e sabe que realizará muitos outros, por mais difíceis que possam parecer. Mas o mais importante é que hoje Ana tem a certeza de que viver foi a melhor escolha que ela poderia fazer. Todos os dias milhares de pessoas cometem suicídio no mundo todo e esse índice é cada vez mais reincidente entre os jovens. Para se ter uma noção da gravidade, segundo a Organização Mundial de Saúde, hoje o suicídio mata mais jovens do que o HIV em todo o mundo. A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio em alguma parte do planeta. É preciso um olhar mais aprofundado sobre isso. O suicídio precisa ser mais discutido, conversado e principalmente evitado. Se você conhece alguém que já tentou tirar a própria vida ou apresenta um quadro de risco, como depressão, por exemplo, não vire as costas. Ouça, compreenda e principalmente, encoraje a pessoa a procurar ajuda profissional. Ana poderia agora compor as estatísticas, mas felizmente isso não aconteceu. Ela está viva porque alguém se importou. Mostre que você também se importa. Ajude a salvar vidas. Sim você pode fazer a diferença.

Para ver mais da campanha postada pelo Garoto in Foco, leia o texto Fica mais um pouco, a vida te pede isso.

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