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Só se vê bem com o coração

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A frase é clichê, o livro é um clássico e o filme é campeão de bilheteria. Mas, o que fazemos com tudo isso? Seguimos adiante jurando ter aprendido, mas esquecemos antes mesmo de virar a próxima esquina ou fazemos valer tudo o que o menininho de cabelos cor de ouro, viajante do universo, tentou nos ensinar?

Meu primeiro contato com O Pequeno Príncipe foi ainda na infância. Primeira leitura, livro escolhido na biblioteca que meu pai mantinha no pequeno apartamento onde morava. Levada pela curiosidade e instigada pelas ilustrações (criança adora livros ilustrados), mergulhei na história e me deixei habitar o asteroide B612, contemplei o nascer da rosa, vi o sol se pôr 46 vezes em único dia, vigiei os vulcões, tive medo dos baobás. E quando o pequenino decidiu partir, chorei. Por ele e pela rosa. Porque nesses 34 anos de vida ainda não aprendi a lidar com despedidas.

Peguei carona com os pássaros e visitei alguns planetas. Ao me deparar com seus solitários habitantes tive a impressão de já conhecê-los de algum lugar. Um rei, um homem de negócios, um bêbado, um vaidoso, um geógrafo, um acendedor de lampiões. Assim como o principezinho, eu também estava em busca de amigos, mas ali todos estavam ocupados demais consigo mesmos, exceto o último, que se deixava cada vez mais consumir pelo trabalho.

Enfim chegamos à terra. Como descrito pelo nosso pequenino, um planeta estranho – seco, pontudo e salgado. Conhecemos a raposa que, assim como nós, também procurava um amigo. E nos deixamos cativar. Mas como sempre acontece com quem cria laços assim, tão bonitos, acabamos por chorar um pouco. Porque na hora da despedida é inevitável derramar algumas lágrimas, seja no livro ou na vida real. E um dia a gente sempre acaba tendo que se despedir.

 Mas caminhando pela terra podemos encontrar pessoas incríveis. Encontramos um aviador perdido no deserto, seu avião sofrera uma pane e estávamos há milhas e milhas de qualquer terra habitada. Nosso pequeno herói de cabelos dourados partira do asteroide B612, mas seu coração permanecera lá, junto à rosa. Mesmo à distância, queria cuidar de sua frágil preciosidade. Por isso, pediu àquele desconhecido que lhe desenhasse um carneiro, a fim de que este comesse as plantas que tanto ameaçavam o solo de seu limitado planeta.

Não sabíamos ainda, mas ali era o começo de uma grande amizade. Também cativamos e nos deixamos cativar pelo aviador, sofremos com ele a sede, o calor, o frio e a solidão do deserto. Compartilhamos o medo de não voltar para casa. Mas a hora da despedida sempre chega. E chegou. Ele consertara o avião e o príncipe decidira partir de volta ao B612. Mas havia um problema: o principezinho não podia viajar de volta carregando esta casca à qual chamamos de corpo. Era preciso se despir dela. Morrer para renascer. E foi assim que, por volta dos 8 ou 9 anos de idade, tive meu primeiro contato com a morte e fui tomada pela ideia do “nunca mais”.

Talvez você esteja agora se perguntando sobre o que isso tudo tem a ver com o título do texto. Deixa eu te explicar. Eu resumi aqui a história do Pequeno Príncipe porque a vida é mais ou menos como a sua viagem à Terra. A gente conhece pessoas que valem a pena e algumas outras que não valem tanto assim. Mas de cada uma tiramos algumas lições e deixamos também algumas. Porém, nunca saberemos o que realmente importa se não enxergarmos com o coração. Temos que ir além das aparências, visitar a alma das pessoas. O corpo é só uma casca. A vida é uma passagem. Um dia todos nós precisaremos voltar ao nosso lugar de origem. Mas o que nos faz eternos é o que sentimos. É isso o que faz valer a pena, seja uma visita, uma viagem ou a vida inteira. Uma rosa pode ser igual a cem mil outras, uma raposa será apenas mais uma raposa. Mas, se a gente enxerga com o coração, nenhuma parecerá igual. Porque o essencial é definitivamente invisível aos olhos. E a gente precisa mesmo aprender a enxergar com o coração.

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