Postado no dia Janeiro 7, 2019

Não são raras as vezes em que somos espaçosos: ocupamos tempo demais, espaço demais, alugamos demais as pessoas sem nos dar conta de que o nosso excesso acaba sobrecarregando o outro. Eis a nossa falha. Achamos que os amigos são eternos cabides ou máquinas de ouvir lamentações e passamos horas a fio narrando detalhes minuciosos sobre aquela briga que tivemos com o namorado, as discussões em família, as velhas frustrações. Amigo, claro, é pra essas coisas, mas não é só pra isso e nem sempre a gente entende que não é. Às vezes queremos desabafar, queremos colo, compreensão, empatia, mas esquecemos de que não dá pra ter tudo isso sempre – o outro também vive, tem sentimentos, frustrações, também discute com a namorada, com a família, fica desempregado, sem dinheiro, sem paradeiro, sem eira nem beira. Mas será que estamos dispostos a ouvi-lo na mesma proporção que ele nos ouve?

Às vezes somos excessivos. Queremos atenção e tentamos dividir tudo, cada detalhe do nosso dia, como se as pessoas fossem nosso “querido diário” e estivessem ali sempre dispostas. Algumas até estão, mas são humanas, um dia estarão na correria, no trânsito, no trabalho, a panela no fogo, criança chorando, aquele relatório que não deu tempo entregar ou seja lá qual for a circunstância da vida em que não poderão nos dar a sua plena e imediata compreensão. E aí? Saberemos entender que é a nossa vez de ouvir?

Talvez seja a hora de repensarmos tudo isso. Toda essa bagagem que impomos ao outro dividir conosco é mesmo necessária? Acredito que não. Boa parte dela é, possivelmente, força do hábito. Sim, nos habituamos a tagarelar como se falar sobre tudo o que nos acontece fosse uma necessidade extrema, questão de sobrevivência. E às vezes até é. Mas não na sua maioria.

É preciso aprender a guardar também um pouco do que nos acontece, até mesmo para refletirmos, remoermos um pouco as nossas dores e buscarmos as nossas próprias respostas. Se conversar com o outro nos faz bem, conversar com nós mesmos pode ser também uma ótima terapia e um grande exercício de autoconhecimento. E é provável que a partir disso consigamos aprender que nem todo espaço nos é cabível e que amigo não é um baú particular. Talvez aprendamos que podar um pouco dos nossos galhos ajude na boa convivência com o vizinho e que não transbordar o tempo todo seja uma ótima maneira de manter a relação enxuta, arejada, saudável. É muito bom ter alguém pra desabafar, mas é melhor ainda saber que esse alguém não está ali apenas para nos agradar. Que antes de forçar espaço demais na vida do outro, saibamos caber primeiro dentro de nós mesmos.

Mas é preciso saber também que não somos espaçosos apenas com quem é próximo. Muitas vezes o somos no trabalho, ao demonstrarmos o nosso pavio excessivamente curto, ao querermos todo dia algo emprestado, ao falarmos alto pelos corredores sobre a nossa vida pessoal, que só diz respeito a nós mesmos. Ocupamos espaço demais quando criticamos indevidamente o colega, quando fazemos fofoca, causamos intriga, damos vencimento da vida dos outros sem que nada nela seja da nossa conta. Somos indevidamente espaçosos quando falamos alto demais ao celular, fazendo os outros ouvirem a nossa conversa sem que tenham a menor necessidade (e vontade) de saberem o que se passa entre nós e nosso interlocutor.

Pois bem. Há muitas e muitas situações em que tomamos espaço demais roubando tempo, paciência e sanidade dos outros sem pedir licença, sem aviso prévio e pior: sem sanar os prejuízos. E é muito provável que fossemos mais convidados, mais queridos, mais solicitados se não insistíssemos tanto nessa inserção forçada, nessa popularidade inventada, nessa falta de bom senso e autocrítica. Somos mesmo muito espaçosos, mas nada pode ser tão ruim quanto tomar espaço, armar barraca e se estabelecer sem pagar aluguel na vida de quem quer que seja sem que antes essa pessoa nos tenha, com toda a sua boa vontade, nos cedido lugar. Então, que saibamos medir a nossa própria dimensão, mas, principalmente, que aprendamos a arte de ocupar apenas o espaço que nos cabe. Mais do que questão de sobrevivência, é essa uma prova de amor com quem também nos dá o devido valor.

(Bia Lopes)

Bia Lopes Bia Lopes é publicitária com 9 anos de atuação como coordenadora de marketing em assessoria de comunicação. Cordelista, publicou a trilogia Ana Lísias em Cordel, obra dedicada ao público feminino. Também formada em Gestão de Recursos Humanos e trabalha com desenvolvimento humano por meio de palestras, minicursos e capacitações. Ativista da causa animal e apaixonada pela vida. Nas horas vagas, gosta de observar o mundo e descreve-lo neste blog.
Mais em Cotidiano
  • Não são raras as vezes em que somos espaçosos: ocupamos tempo demais, espaço demais, alugamos…

  • “Ele não me deixa mexer no celular dele”. A frase, que poderia ter vindo de…

  • Já parou pra pensar que tudo morno é ruim? Café, chá, comida, amor… É como…

  • “Que tipo de mulher é você?” Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa…

  • Sempre fui uma pessoa nostálgica. Quando digo “sempre” eu me refiro a sempre mesmo, tipo,…

  • Últimas Histórias
    Ver todos os posts

    Youtube

    Gratidão e recomeço. Bem-vindo, 2019!

    Não veja esse vídeo

    Aprenda a ficar sozinha

    Mulheres & Novelas

    Moda é ser livre (e respeitar o próprio corpo)

    Moça, você é livre