Ultimamente tenho tido a impressão de que só conheço dois tipos de pessoas. Parece que o mundo resolveu se dividir em dois times: o dos que não querem se apegar e o dos que querem desesperadamente casar, ter filhos e ‘ser felizes para sempre ao lado da cara metade’. Coincidência ou ironia do destino, parece que esses opostos se atraem, se esbarram e… já dá pra imaginar a confusão, né? Pois é. De um lado um amigo grita ao mundo que ama a liberdade, por isso não quer relacionamento sério com ninguém. Do outro uma amiga chora as mágoas dizendo que precisa encontrar o amor de sua vida, que não aguenta mais ficar sozinha, que não nasceu pra solidão e tem pavor só de imaginar o almoço de domingo com as tias perguntando “cadê os namoradinhos”.

 Minha vontade, claro, é aconselhá-los dizendo que, caso cruzem o caminho um do outro, fujam imediata e desesperadamente. É tragédia anunciada. Porém, nem sempre dá tempo. Na grande parte das vezes eles já chegam até mim tendo não apenas se esbarrado, mas se conhecido, ficado, às vezes até namorado e sabe-se lá mais o quê. E esse jogo nunca fica empatado. O fato é que já vêm se lamentando. Um do outro, claro. E cabe a mim me esquivar do fogo cruzado e tentar me fazer ouvir (a parte mais difícil, pois o desapegado não quer papo e a apegada fala, chora e se lamenta por horas a fio). Complicado.

 Estar frequentemente nessa zona de conflito me leva a pensar que vivemos no tempo dos excessos. Se temos uma ideia ou opinião sobre algo, nos apegamos a isso como se fosse o último bote salva-vidas. Não há meio termo. Flexibilidade pra quê? É muito mais fácil apegar-se a um pensamento e permanecer nele do que expandir a mente e tentar ver as coisas por um outro ângulo. E dane-se quem discordar. Claro que cada um tem o direito de querer para si aquilo que acha melhor, mas às vezes confundimos esse melhor com “o que melhor convém”. Algumas outras escolhas poderiam ser infinitamente melhores, embora não o pareçam de imediato, mas ninguém quer pagar pra ver. E ninguém quer dar o braço a torcer.

 Você quer ficar sozinho? Ótimo. Isso é bom e até muito necessário. Mas dizer que vai ficar sozinho a vida inteira é um tanto precipitado, não acha? Não querer relacionamento sério com ninguém chega a ser um exagero tão grande quanto dizer que precisa encontrar a cara metade e sair correndo atrás do primeiro que aparece. A vida não é feita de extremos, mas de equilíbrio. Saber dosar as coisas é fundamental e isso serve pra tudo, inclusive (e principalmente) para os relacionamentos.

 Quem radicaliza não ouve o outro lado, não se coloca no lugar do outro, não aceita pensar diferente. E isso resulta em quê? Numa vida limitada. Não querer relacionamento temporariamente é compreensível, todo mundo precisa de um tempo sozinho, pouco ou muito, o que for. Mas também há fases na vida em que encontrar alguém pode ser um grande acontecimento. E o principal: pode nos trazer crescimento. Aprender a compartilhar, a dividir, a pensar além de si mesmo, a ver a vida por um outro ângulo. A vida a dois não é feita apenas de problemas, como tanta gente diz, mas de parceria, companheirismo e o principal: amor. E isso é muito mais enriquecedor do que se pode imaginar.

 Da mesma maneira, quem procura desesperadamente por alguém precisa aprender sobre o meio termo. Não se pode passar a vida buscando qualquer pessoa, porque assim você corre mesmo o risco de achar qualquer um. Antes de se jogar nos braços do primeiro que aparecer, pense em você. Aprenda a viver sozinho e a curtir sua própria companhia. E quando conhecer alguém, que você se entregue por amor e não por desespero. Que não seja o primeiro que aparecer, mas quem fizer por merecer. Seu coração não é peça de liquidação de feira, mas um bem raro e precioso. Porém, se você não se valorizar, ninguém mais fará isso. Entendeu?

 O bom da vida é deixar acontecer. Estabelecer regras ou usar termos como nunca, jamais ou sempre é muito arriscado. A gente pode deixar de viver coisas maravilhosas porque resolveu se fechar em uma decisão muitas vezes baseada em uma única experiência, ou no exemplo de outras pessoas. Mas a vida não vem com receita pronta. A única coisa que eu sei é que o placar precisa sair do zero a zero e as duas extremidades do coração precisam encontrar um ponto de equilíbrio. O casamento que não deu certo pro seus pais pode durar a vida inteira pra você. Da mesma maneira que o relacionamento perfeito dos seus avós pode passar longe da sua história de vida. Não dá para prever. E só há uma maneira de saber: vivendo. Então desfaça os nós do radicalismo e abrace o que vier de bom. Apego demais faz mal. Desapego em excesso gera solidão. A dose certa para o amor? Primeiro você experimenta, depois volta aqui pra me contar, por favor.

Bia Lopes Bia Lopes é publicitária com 9 anos de atuação como coordenadora de marketing em assessoria de comunicação. Cordelista, publicou a trilogia Ana Lísias em Cordel, obra dedicada ao público feminino. Também formada em Gestão de Recursos Humanos e trabalha com desenvolvimento humano por meio de palestras, minicursos e capacitações. Ativista da causa animal e apaixonada pela vida. Nas horas vagas, gosta de observar o mundo e descreve-lo neste blog.
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