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A difícil arte de desocupar o coração

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Há um momento na vida em que a gente se sente pesar. Não falo em relação ao corpo, mas à alma. É como se ao longo do tempo fôssemos acumulando pessoas e sentimentos no coração, talvez por acreditar naquela história de que sempre cabe mais um. Porém, sinto dizer: não, não cabe. O coração é elástico quando se trata de felicidade, de gente boa, do bem, do amor. O espaço reservado para isso é infinito e pode sim, chegar mais aí que a gente dá um jeito de arrumar um cantinho, nem que faça um puxadinho. Mas quando se trata de pessoas e coisas negativas, a sensação é de que ele vai encolhendo. O resultado é que vamos nos sentindo sufocar.

Imagina quanto espaço tudo isso ocupa: as desilusões da infância, do primeiro amor, as decepções com amigos, as chateações familiares, os foras que costumamos colecionar, as mágoas acumuladas em relação aos outros e, claro, as que alimentamos de nós mesmos. Imagina tanta coisa junta em um lugar que se encolhe cada vez que você se entristece. Mais cedo ou mais tarde, ou você explode ou, para tentar suportar, se retrai. E boa coisa dessa situação é que não sai.

Mas, por que depois de tanto tempo tudo isso ainda permanece guardado? Porque a gente alimenta, claro. Costumamos passar horas revendo situações que nos geraram sofrimento, imaginando o que poderíamos ter dito ou feito a tal pessoa em determinada circunstância, que aquilo não vai ficar daquele jeito, fulano há de pagar. Não é assim? Algumas mágoas são tão antigas que até já perderam o sentido, mas nutrimos por elas uma relação de apego, como se na sua ausência nossa vida não pudesse ser a mesma. E realmente não poderia. Seria, na verdade, bem melhor.

O fato é que precisamos aprender a desocupar o coração. Não, não é fácil, eu sei muito bem. Mas é necessário. Como dar lugar ao que é bom se nos apegamos tanto ao que é ruim? Como renovar a amizade e ter de volta a maravilha daquela companhia se não somos capazes de nos livrar do ressentimento que causou a separação? Se o ex te fez mal, fique apenas com a lição e se despeça da assombração. Exorcize os antigos fantasmas. Há gente muito mais interessante merecendo lugar na sua vida. E, sinceramente, perdoe a quem tiver de perdoar. Deixe ir e foque apenas no que te faz bem. Quando você aprender de verdade a dar espaço ao que realmente vale a pena, entenderá que a vida é curta demais pra gente se prender ao que machuca. Ficar cultivando (e cutucando) feridas impede que elas sarem de verdade. E quer saber? Quando somos capazes de diminuir o nosso orgulho, nosso coração aumenta. O ressentimento pode até se acumular como plástico, mas o amor é elástico. E se você acha que o mal pode ser grande, ah, meu amigo, o bem, esse sim é um gigante.

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