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Não corte as asas do amor

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Outro dia, enquanto aguardava atendimento em um consultório, não pude deixar de reparar no casal sentado à minha frente. E olha, não sou de ficar reparando nas pessoas. Tanto que se você comentar comigo sobre alguém que acabou de passar na rua, não saberei dar informação alguma sobre a sua aparência. Mas nesse dia foi inevitável. A moça tentava se entrelaçar a todo custo no rapaz, embora este já a estivesse envolvendo em seus braços. Porém, para ela aquilo não parecia ser o suficiente. E foi justamente aquela discrepância que me chamou a atenção.

Pelo que pude entender, ele acabara de contar que fora aprovado em algo e que passaria algum tempo longe, mas que tudo aquilo seria bom, pois quando voltasse poderiam se casar. Ela parecia extremamente insegura diante daquela notícia e demonstrava não aceitar de jeito nenhum a nova situação. Ponderava, insistia, reclamava e se jogava nos braços dele, o que me lembrava uma criança birrenta que tenta a todo custo convencer o pai com um drama que une fala e expressão corporal. Ele, que ao dar a notícia parecia feliz e entusiasmado, agora assumia o papel do pai inseguro e confuso diante do comportamento da tal criança.

Aquilo me fez pensar no quanto somos egoístas e sentimentalmente imaturos. Você ama uma pessoa, mas a quer pra sempre acorrentada em você. Vê-la feliz, mesmo que para isso ela precise se afastar um pouco (ou muito, seja como for), está fora de cogitação. Não queremos nos desprender, não admitimos que o outro bata as asas e voe para onde se sinta feliz, mesmo com a promessa de sua volta, porque no fundo a nossa insegurança nos faz acreditar que ele não voltará. Mas esquecemos de um detalhe: se ele ficar, ainda ficará conosco?

As correntes sufocam, o outro precisa de liberdade. Todos nós precisamos. Que amor é esse que impede de crescer, que não quer evoluir, que não aceita ficar longe? Se o relacionamento não está preparado para enfrentar distâncias e sobreviver a elas, ele está realmente construído em solo seguro? Amar alguém nos dá o direito de domínio sobre as decisões da outra pessoa? Podemos impedir a realização de um sonho, a busca por uma meta, uma nova estrada, um novo caminho, podemos cortar as asas e prender o ser amado sob uma redoma? Se você faz isso, talvez não ame. Talvez se sinta dono, proprietário, mas não amado.

Amar é quando você coloca a felicidade do outro acima das suas frustrações e inseguranças. Quem ama, mesmo que sofra, incentiva o vôo. Mais do que isso, impulsiona a voar. Não aceitar, não dialogar para se chegar a um acordo, fazer birra e chegar ao ponto de mandar escolher entre você e o sonho é no mínimo falta de maturidade. E quem não tem maturidade não deve entrar em um relacionamento de verdade.

O que precisamos entender é que ninguém pertence a ninguém. Você pode amar, namorar, casar, mas isso não te dá direitos sobre a pessoa. O que você pode fazer é alimentar o sentimento da melhor maneira, para que o outro sinta a necessidade de estar ao seu lado e de ter a sua companhia pelo resto da vida, para que você seja o porto onde ele sempre irá desembarcar, não porque se sente preso, mas porque você é a pessoa com quem ele gosta de compartilhar o cotidiano.

Não prive seu amor. Não corte as suas asas. Um pássaro vive infeliz quando passa a vida engaiolado, mas quando criado solto, volta todos os dias para pousar no seu dedo e cantarolar feliz. As correntes do egoísmo apertam o coração e transformam o amor em desilusão. Quer ter alguém? Dê a ele liberdade, mesmo que ele voe para longe e você fique na saudade. Assim, um dia, ele voltará. E somente dessa maneira você entenderá o verdadeiro significado de amar.

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